Procedimento · Uro-oncologia
RTU de bexiga
A ressecção transuretral de tumor de bexiga — RTU — é a cirurgia endoscópica que remove lesões da bexiga por dentro da uretra, sem cortes. Na maioria dos casos de câncer de bexiga, é o primeiro procedimento realizado: trata e, ao mesmo tempo, fornece o material que define todo o restante do tratamento.
Revisão médica:
Dr. José Henrique Santiago · MÉDICO — Urologia · CRM-SP 178624 · RQE 67765
Vinculado à Disciplina de Câncer de Bexiga da Sociedade Brasileira de Urologia.
Última revisão: 27 de julho de 2026
O que é a RTU de bexiga?
É uma cirurgia realizada inteiramente por via endoscópica: um aparelho fino com câmera — o ressectoscópio — é introduzido pela uretra até a bexiga, e a lesão é removida com uma alça de energia, sob visualização direta. Não há incisão externa nem pontos na pele.
A RTU tem um papel duplo que a diferencia da maioria das cirurgias. Ela é terapêutica, porque remove a lesão visível, e é diagnóstica, porque todo o material retirado segue para o exame anatomopatológico — o laudo que informa o grau do tumor e se há invasão da camada muscular da bexiga. São essas duas informações que determinam o plano de tratamento dali em diante.
Quando a RTU é indicada?
As principais situações são:
- Lesão na bexiga identificada em cistoscopia ou exame de imagem, para remoção e diagnóstico
- Tratamento do câncer de bexiga não músculo-invasivo, em que a ressecção endoscópica é a base da estratégia
- Estadiamento: obter amostra com camada muscular suficiente para o patologista afirmar se há ou não invasão
- Controle de sangramento vesical em situações selecionadas
A distinção entre doença não músculo-invasiva e músculo-invasiva — e por que ela muda toda a estratégia — está explicada na página sobre o câncer de bexiga.
Como a cirurgia é feita?
O procedimento é realizado em ambiente hospitalar, sob raquianestesia ou anestesia geral, definida na avaliação pré-anestésica. Com o paciente anestesiado, o ressectoscópio é introduzido pela uretra e a bexiga é inspecionada por completo antes da ressecção.
A lesão é então removida com alça de energia — nos equipamentos atuais, frequentemente energia bipolar com irrigação de soro fisiológico. A ressecção pode ser feita em fragmentos ou, em lesões selecionadas, em bloco único. A base da lesão costuma ser amostrada de forma representativa, justamente para garantir músculo na amostra.
A duração típica varia de 30 a 90 minutos, conforme o número e o tamanho das lesões. Ao final, uma sonda vesical é posicionada — em parte dos casos com irrigação contínua nas primeiras horas, para manter a urina clara.
Por que a qualidade da ressecção importa tanto?
Porque o laudo anatomopatológico só é confiável se a amostra for adequada. Para afirmar que um tumor não invade o músculo, o patologista precisa encontrar camada muscular no material — e ela precisa estar livre de tumor. Uma ressecção incompleta ou superficial demais pode subestimar o estágio da doença e levar a um plano de tratamento errado.
Por isso, em situações específicas — tumores de alto grau, estágio T1 ou amostra sem músculo suficiente — as diretrizes recomendam uma segunda ressecção (re-RTU), geralmente realizada entre duas e seis semanas após a primeira. Ela confirma o estadiamento e remove eventual doença residual. Quando indicada, essa segunda cirurgia faz parte da estratégia, e não significa que a primeira falhou.
Como é o preparo?
- Avaliação pré-anestésica, com os exames solicitados conforme idade e comorbidades
- Exame de urina: infecção ativa deve ser tratada antes do procedimento
- Anticoagulantes e antiagregantes: a pausa ou manutenção é definida junto ao médico que os prescreveu — nunca por conta própria
- Jejum conforme orientação da equipe de anestesia
A internação costuma ocorrer no mesmo dia da cirurgia.
Como é a recuperação?
A internação dura, em geral, de um a dois dias. A sonda vesical permanece por um a dois dias na maioria dos casos e costuma ser retirada antes da alta.
É esperado, nos primeiros dias:
- Urina rosada ou com pequenos coágulos, que tende a clarear progressivamente
- Ardência ao urinar e vontade frequente de ir ao banheiro
- Leve desconforto na região baixa do abdome
A hidratação abundante ajuda a manter a urina clara. Esforço físico intenso e atividade sexual são geralmente evitados por cerca de duas semanas, para reduzir o risco de sangramento tardio. O retorno ao trabalho depende da atividade exercida e é orientado na consulta de revisão.
O que é a instilação intravesical após a RTU?
Em casos selecionados, uma dose única de quimioterápico é instilada dentro da bexiga nas primeiras horas após a ressecção, através da própria sonda. Estudos mostram que essa medida reduz o risco de recidiva em pacientes apropriadamente selecionados, e a decisão é tomada caso a caso, considerando o aspecto da lesão e a extensão da ressecção.
Essa dose única não se confunde com o curso de imunoterapia intravesical com BCG: este é definido depois, a partir da classificação de risco fornecida pelo laudo anatomopatológico, e faz parte do tratamento da doença não músculo-invasiva de risco intermediário e alto.
Quais são os riscos?
A RTU é um procedimento consolidado, mas, como toda cirurgia, tem riscos — a maioria de baixa gravidade e manejo simples:
- Sangramento transitório, que em geral cede com hidratação e repouso; retenção por coágulos pode exigir lavagem vesical
- Sintomas irritativos (ardência, frequência), autolimitados na maior parte dos casos
- Infecção urinária, tratável com antibiótico
- Perfuração da parede vesical, incomum; costuma ser manejada com mais tempo de sonda e raramente exige cirurgia
- Estreitamento da uretra, complicação tardia pouco frequente
O que acontece depois do resultado?
O laudo anatomopatológico define o grau do tumor e a presença ou não de invasão muscular. A partir daí, os caminhos principais são:
- Doença não músculo-invasiva: seguimento com cistoscopias periódicas e, conforme a classificação de risco, terapia intravesical — mantendo a bexiga
- Indicação de segunda ressecção, nas situações de estadiamento incerto descritas acima
- Doença músculo-invasiva: o tratamento muda de patamar, geralmente combinando quimioterapia e cistectomia radical
O racional de cada caminho, incluindo a classificação de risco e o papel do BCG, está detalhado na página sobre o câncer de bexiga.
Perguntas frequentes
A RTU de bexiga dói?
A cirurgia é realizada sob raquianestesia ou anestesia geral, sem dor durante o procedimento. No pós-operatório, é comum haver ardência ao urinar e vontade frequente de ir ao banheiro por alguns dias — sintomas que tendem a melhorar progressivamente e são manejados com medicação e hidratação.
Quanto tempo fico internado?
Na maioria dos casos, de um a dois dias. O tempo varia conforme a extensão da ressecção, o aspecto da urina no pós-operatório e as condições clínicas de cada paciente.
Vou precisar de sonda vesical?
Sim, uma sonda é posicionada ao final da cirurgia e permanece, em geral, de um a dois dias. Ela mantém a bexiga em repouso e permite a lavagem contínua quando necessário. A retirada é feita antes da alta na maior parte dos casos.
Quando sai o resultado da biópsia?
O laudo anatomopatológico costuma ficar pronto em uma a duas semanas, variando conforme o laboratório. É esse resultado que define o grau do tumor e se há invasão da camada muscular — as duas informações que orientam todo o plano de tratamento.
A RTU remove todo o tumor?
O objetivo é a remoção completa de toda lesão visível. A confirmação, porém, vem do laudo anatomopatológico. Em situações específicas — tumores de alto grau, estágio T1 ou amostra sem músculo suficiente — uma segunda ressecção é indicada algumas semanas depois para confirmar o estadiamento, o que faz parte da estratégia e não significa falha do primeiro procedimento.
Quando posso voltar às atividades?
Atividades leves costumam ser retomadas poucos dias após a retirada da sonda. Esforço físico intenso e atividade sexual são geralmente evitados por cerca de duas semanas, para reduzir o risco de sangramento. O retorno é individualizado e orientado na consulta de revisão.
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