Uro-oncologia
Câncer de testículo
É o tumor sólido mais frequente em homens jovens, numa faixa de idade em que quase ninguém pensa em câncer. Na maior parte das vezes ele aparece como um endurecimento indolor, percebido pelo próprio paciente — e é justamente a ausência de dor que costuma adiar a consulta.
Revisão médica:
Dr. José Henrique Santiago · MÉDICO — Urologia · CRM-SP 178624 · RQE 67765
Especialização em uro-oncologia pelo Instituto Dr. Arnaldo.
Última revisão: 28 de julho de 2026
O que é o câncer de testículo?
É um tumor que se origina no testículo, órgão responsável pela produção dos espermatozoides e da testosterona. A grande maioria dos casos corresponde aos tumores de células germinativas, que nascem das células precursoras dos espermatozoides e se dividem em dois grandes grupos: os seminomas e os não seminomatosos.
Essa divisão não é um detalhe de laboratório. Os dois grupos têm comportamento distinto, respondem de forma diferente às modalidades de tratamento e seguem caminhos distintos depois da cirurgia inicial — por isso a definição do tipo celular é uma das informações que mais pesam na condução do caso.
As diretrizes das sociedades de especialidade descrevem o câncer de testículo como um tumor de boa resposta ao tratamento, inclusive em situações de doença disseminada, o que o diferencia do comportamento habitual de outros tumores sólidos. Isso descreve a doença, e não o resultado de um caso: a evolução depende do tipo celular, da extensão no momento do diagnóstico e da resposta individual — variáveis que só a avaliação de cada paciente define.
Quem é afetado
A concentração em adultos jovens é a característica epidemiológica mais marcante dessa doença. Enquanto a maior parte dos tumores urológicos se torna mais comum com o avanço da idade, o câncer de testículo tem seu pico em homens em idade produtiva e reprodutiva, muitos deles sem qualquer histórico médico prévio.
Isso tem duas consequências práticas. A primeira é que a doença raramente é considerada nas primeiras hipóteses — tanto pelo paciente quanto, às vezes, na avaliação inicial —, e um endurecimento no testículo acaba sendo atribuído a inflamação ou a um trauma recente. A segunda é que temas que em outras faixas etárias seriam secundários passam a ser centrais aqui: fertilidade e função hormonal precisam entrar na conversa desde o começo, não ao final do tratamento.
Quais são os sintomas?
O achado mais comum é um nódulo ou endurecimento indolor no próprio testículo, notado ao acaso durante o banho ou depois de uma pancada na região. Outros sinais descritos:
- Aumento do volume do testículo ou mudança na sua consistência
- Sensação de peso no escroto
- Desconforto surdo na virilha ou no baixo-ventre
- Aumento ou sensibilidade do tecido mamário
- Dor lombar persistente
- Falta de ar ou tosse sem causa respiratória identificada
Os três últimos não parecem urológicos, e vale entender por quê. Alguns desses tumores produzem hormônios que atuam sobre o tecido mamário. E a via de disseminação característica é o retroperitônio — a região profunda do abdome onde ficam os linfonodos que drenam o testículo —, o que explica a dor lombar; a partir dali, o acometimento pode alcançar o tórax. Em uma parcela dos casos, é uma dessas manifestações à distância que leva ao diagnóstico.
Nem todo nódulo no escroto é câncer
Vale dizer isso com clareza, porque o intervalo entre perceber uma alteração e ser avaliado costuma ser vivido com muita angústia. A maior parte das alterações percebidas no escroto corresponde a condições benignas, e várias delas são muito mais frequentes que o tumor:
- Hidrocele — acúmulo de líquido ao redor do testículo. Aumenta o volume do escroto, mas o testículo em si mantém consistência normal.
- Varicocele — dilatação das veias do cordão espermático, descrita à palpação como um emaranhado. Fica mais evidente em pé e diminui ao deitar.
- Cisto de epidídimo e espermatocele — nódulos de conteúdo líquido situados acima e atrás do testículo, que a palpação consegue separar dele.
- Epididimite e orquite — processos inflamatórios, geralmente com dor, calor e vermelhidão, de instalação mais rápida e com melhora sob tratamento.
A diferença que mais orienta a suspeita é onde está a alteração e como ela se comporta: um endurecimento no corpo do próprio testículo, que não dói e não regride com o tempo, é o achado que pede avaliação. Ainda assim, essa distinção não se resolve pelo tato nem pela descrição — resolve-se com o exame de imagem apropriado, em consulta.
O que aumenta o risco?
Criptorquidia
O testículo que não desceu para o escroto durante o desenvolvimento é o fator de risco mais bem estabelecido. Um ponto que costuma surpreender: o risco permanece aumentado mesmo quando houve correção cirúrgica na infância — a cirurgia reposiciona o testículo e permite examiná-lo, mas não elimina a predisposição. Por isso o antecedente continua relevante na idade adulta e merece ser mencionado em consulta, mesmo décadas depois.
Antecedente pessoal e história familiar
Quem já teve um tumor em um dos testículos tem risco aumentado de desenvolver um tumor no outro — o que faz do testículo contralateral um ponto permanente de atenção no acompanhamento. História de câncer de testículo em pai ou irmão também está associada a risco maior, embora a maioria dos casos ocorra sem qualquer antecedente familiar.
Atrofia testicular e alterações da fertilidade
Testículos de volume reduzido e alterações persistentes no espermograma aparecem associados a risco aumentado. É uma relação que funciona nos dois sentidos na prática clínica: uma parcela dos diagnósticos surge durante a investigação de dificuldade para engravidar, e não a partir de uma queixa no escroto — motivo pelo qual o exame físico dos testículos faz parte da avaliação descrita no guia de infertilidade masculina.
O que não aumenta o risco
Vale desfazer três associações comuns. Trauma não causa câncer de testículo — o que acontece com frequência é a pancada chamar atenção para a região e levar o homem a examinar o testículo, encontrando ali um nódulo que já existia. Vasectomia não está associada a risco aumentado. E nem a atividade sexual, nem o tipo de roupa, nem a prática esportiva figuram entre os fatores reconhecidos.
Quando procurar um urologista?
Recomenda-se avaliação diante de:
- Qualquer nódulo, caroço ou área endurecida percebida no testículo
- Mudança no tamanho, no formato ou na consistência de um dos testículos
- Sensação persistente de peso no escroto ou desconforto na virilha
- Aumento ou dor no tecido mamário sem outra explicação
- Dor lombar persistente sem causa esclarecida, em homem jovem
- Antecedente de criptorquidia ou de tumor no outro testículo
Uma observação sobre o tempo: a ausência de dor faz com que muitos homens acompanhem o nódulo por meses antes de procurar avaliação, esperando que ele desapareça sozinho. Não doer não significa não precisar de avaliação — no caso do testículo, é quase o contrário.
Situação diferente: dor súbita e intensa
Dor forte e de início abrupto em um dos testículos, muitas vezes acompanhada de náusea e de elevação do testículo dentro do escroto, não corresponde ao quadro descrito nesta página. Pode indicar torção testicular, que é uma emergência e depende de atendimento imediato em pronto-socorro — a chance de preservar o testículo diminui com o passar das horas. Nesse cenário não se aguarda consulta agendada.
Como é feito o diagnóstico?
Ultrassonografia do escroto
É o primeiro exame e resolve boa parte da questão. Ele mostra se a alteração está dentro do testículo ou em estruturas vizinhas, se é sólida ou de conteúdo líquido, e qual o seu tamanho — informações que separam com boa precisão o tumor das condições benignas descritas acima. É um exame rápido, sem radiação e sem preparo.
Marcadores tumorais no sangue
A dosagem de alfafetoproteína (AFP), beta-hCG e LDH é parte da avaliação inicial. São substâncias que alguns desses tumores lançam na corrente sanguínea, e têm papel triplo: ajudam na caracterização inicial, participam do estadiamento e servem de referência para o acompanhamento posterior — por isso são colhidas antes da cirurgia.
Há um detalhe desse conjunto que vale explicar, porque costuma gerar dúvida quando o paciente lê o próprio laudo: o seminoma puro não produz alfafetoproteína. Quando a AFP está elevada e não existe outra explicação — doença do fígado, por exemplo —, o caso é conduzido como não seminomatoso, ainda que a análise do tecido descreva apenas seminoma. Em outras palavras, aqui o resultado do sangue pode se sobrepor ao que o microscópio mostrou.
A recíproca também importa: marcadores normais não afastam o diagnóstico. Uma parte relevante desses tumores não produz nenhum deles.
Por que não se punciona o escroto
Aqui o câncer de testículo se comporta de forma diferente da maioria dos tumores. Em vários outros cânceres, a biópsia por agulha precede qualquer decisão. No testículo, a via de acesso importa: puncionar ou abrir o escroto expõe uma rota de drenagem linfática distinta daquela pela qual o tumor naturalmente se dissemina, o que pode alterar tanto o padrão de disseminação quanto a estratégia de tratamento.
Por isso a abordagem padrão é feita por incisão na virilha, retirando o testículo junto com o cordão espermático. É um procedimento que estabelece o diagnóstico e já constitui o primeiro tempo do tratamento — o mesmo ato resolve as duas coisas. Em lesões pequenas e em situações selecionadas existe a possibilidade de uma cirurgia poupadora, também por acesso inguinal, com análise do tecido durante o próprio ato cirúrgico. A escolha entre as duas é individual.
Estadiamento
Completa a avaliação com tomografia de abdome, pelve e tórax, dada a via de disseminação pelo retroperitônio. Os marcadores são novamente dosados depois da cirurgia: a velocidade com que caem é, por si só, uma informação de estadiamento. O objetivo do conjunto é definir a extensão da doença antes de escolher a etapa seguinte.
Fertilidade: uma conversa com prazo
Esta seção existe porque o tema tem hora certa. A quimioterapia e a radioterapia podem afetar a produção de espermatozoides, e uma parcela dos homens já apresenta alteração no espermograma no momento do diagnóstico, antes de qualquer tratamento — o que reflete a associação entre a doença e a função testicular.
Por isso a preservação de sêmen é discutida no início da investigação, e não depois. Uma vez iniciado o tratamento sistêmico, a oportunidade de coletar material antes da exposição não retorna. É uma decisão do paciente, mas que só existe se a informação chegar no tempo certo — e é essa a razão de o assunto ser levantado logo na primeira consulta, mesmo quando o diagnóstico ainda não está confirmado e mesmo quando ter filhos não é um plano no momento.
Vale dizer também o que costuma tranquilizar: um testículo remanescente e saudável em geral é suficiente para manter tanto a produção de espermatozoides quanto a de testosterona. A preservação é uma medida de precaução diante do que pode vir depois, não a expectativa automática de perda.
Como é o tratamento?
O primeiro tempo é a retirada do testículo acometido por acesso inguinal, que ao mesmo tempo estabelece o diagnóstico definitivo e trata a lesão. O que vem depois não é único: depende do tipo celular encontrado no exame do tecido, do estadiamento e do comportamento dos marcadores após a cirurgia.
Vigilância após a cirurgia
Em parte dos casos de doença restrita ao testículo, a conduta indicada após a retirada é acompanhar com exames em intervalos definidos, sem tratamento adicional imediato. Não é ausência de tratamento nem uma escolha de esperar para ver: é uma conduta estruturada, com consultas, marcadores e imagens em datas marcadas, que reserva as demais modalidades para quem efetivamente vier a precisar delas.
Quimioterapia
Os esquemas baseados em platina são a modalidade de tratamento sistêmico dessa doença, e têm papel tanto na doença disseminada quanto, em situações específicas, como tratamento complementar após a cirurgia. A condução é feita em conjunto com a oncologia clínica.
Radioterapia
Tem indicação restrita a determinadas situações do seminoma, que é o tipo celular sensível a essa modalidade. É um dos pontos em que a separação entre seminoma e não seminomatoso muda concretamente o que se oferece.
Cirurgia sobre os linfonodos do retroperitônio
A remoção dos linfonodos retroperitoneais tem lugar em cenários definidos — seja como parte da estratégia inicial em determinados casos, seja para retirar massa residual que persiste após a quimioterapia. É uma cirurgia de porte, indicada a partir da avaliação conjunta dos exames de imagem e dos marcadores.
O que muda depois da retirada de um testículo
Duas perguntas costumam aparecer logo, e ambas têm resposta objetiva. Sobre a função hormonal: na maior parte dos casos o testículo remanescente compensa a produção de testosterona, sem necessidade de reposição. Quando o testículo restante já tinha função reduzida, ou após determinados tratamentos, os níveis podem ficar abaixo do esperado — daí a dosagem de testosterona fazer parte do acompanhamento, com conduta definida a partir do resultado e dos sintomas.
Sobre a aparência: existe a possibilidade de implante de prótese testicular, que pode ser colocada no mesmo ato cirúrgico ou posteriormente. É uma escolha pessoal, sem impacto sobre o tratamento oncológico, e que merece ser conversada sem constrangimento — para uma parte dos pacientes faz diferença, para outra não faz nenhuma, e as duas posições são igualmente legítimas.
Como é o acompanhamento?
O seguimento combina consulta, dosagem dos marcadores e exames de imagem, em intervalos que são mais próximos nos primeiros anos e vão se espaçando com o tempo. A frequência e a duração dependem do tipo celular, do estágio e do tratamento realizado — não existe um calendário único que sirva para todos os casos.
Dois pontos são próprios dessa doença. O testículo contralateral continua sendo objeto de atenção permanente, porque quem teve um tumor tem risco aumentado de desenvolver outro no lado oposto. E, como o diagnóstico costuma ocorrer em idade jovem, o acompanhamento se estende por um período longo da vida, incorporando a avaliação hormonal e os desdobramentos de fertilidade ao lado do controle oncológico propriamente dito.
Perguntas frequentes
Todo nódulo no escroto é câncer de testículo?
Não. A maior parte das alterações percebidas no escroto corresponde a condições benignas — hidrocele, varicocele, cisto de epidídimo e processos inflamatórios como a epididimite. O que orienta a suspeita é a localização e a consistência: um endurecimento no próprio testículo, indolor e que não regride, exige avaliação. A ultrassonografia do escroto separa essas possibilidades com boa precisão.
Câncer de testículo dói?
Na maioria das vezes, não. A apresentação mais comum é um nódulo indolor, e a ausência de dor é justamente o que faz muitos homens adiarem a consulta por meses. Dor intensa e súbita costuma indicar outra coisa — inflamação ou torção testicular, esta última uma emergência. Não doer não é sinal de que o achado seja inofensivo.
Uma pancada no testículo pode causar câncer?
O trauma não é reconhecido como causa. O que acontece com frequência é a pancada chamar atenção para a região e levar o homem a examinar o testículo, encontrando um nódulo que já existia antes. Vasectomia, atividade sexual e tipo de roupa também não figuram entre os fatores de risco — os reconhecidos são a criptorquidia, o antecedente de tumor no outro testículo e a história familiar.
Por que a biópsia não é feita pelo escroto?
Porque puncionar ou abrir o escroto expõe uma via de drenagem linfática diferente daquela pela qual o tumor normalmente se dissemina, o que pode alterar o padrão de disseminação e a estratégia de tratamento. A abordagem padrão é por incisão na virilha, retirando o testículo com o cordão espermático — o mesmo ato estabelece o diagnóstico e inicia o tratamento. Em lesões pequenas e selecionadas existe a possibilidade de cirurgia poupadora, também por acesso inguinal.
Vou conseguir ter filhos depois do tratamento?
Um testículo remanescente e saudável costuma ser suficiente para manter a produção de espermatozoides e de testosterona. Ainda assim, quimioterapia e radioterapia podem afetar a fertilidade, e parte dos homens já tem alteração no espermograma no momento do diagnóstico. Por isso a preservação de sêmen é discutida no início da investigação, e não depois — é uma conversa com prazo.
Com um testículo só, a testosterona fica normal?
Na maior parte dos casos o testículo remanescente compensa a produção hormonal, sem necessidade de reposição. Em algumas situações — quando o testículo restante já tinha função reduzida, ou após determinados tratamentos — os níveis podem ficar abaixo do esperado, com repercussões como cansaço e redução da libido. A dosagem faz parte do acompanhamento, e a conduta é definida individualmente.
Existe exame de rotina para rastrear câncer de testículo?
Não há recomendação de rastreamento populacional com exame periódico. O que leva ao diagnóstico, na prática, é o próprio homem perceber uma alteração e procurar avaliação — motivo pelo qual conhecer a consistência habitual dos próprios testículos tem valor concreto. Em grupos específicos, como quem tem antecedente de criptorquidia ou de tumor contralateral, o acompanhamento é orientado individualmente.
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Atendimento em Higienópolis, São Paulo, com atuação em uro-oncologia. Se você percebeu um nódulo ou um endurecimento no testículo, ou recebeu um laudo de ultrassonografia com alteração, a consulta permite caracterizar o achado, definir se há necessidade de investigação adicional e discutir as opções cabíveis ao caso.
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